PREVISÃO DO MAR

Ataques de Tubarão no Brasil

“A ausência de um ataque durante um esporte aquático ou banho de mar não significa docilidade, mas sim que as condições daquele momento específico não despertaram o gatilho de caça do animal. A escassez de recursos decorrente do superpovoamento tende a ativar esse gatilho predatório.”

Richote Garibaldi Jr. – Analista de Sistemas e Gestor de TI.

Introdução

Os tubarões são organismos do topo da cadeia alimentar que desempenham um papel ecológico fundamental na manutenção da saúde e do equilíbrio dos ecossistemas marinhos. No entanto, a interação entre seres humanos e esses elasmobrânquios tem gerado conflitos significativos, principalmente quando resulta em incidentes classificados como “ataques”.

Embora o Arquivo Internacional de Ataques de Tubarão (ISAF), da Universidade da Flórida, aponte que os encontros fatais com humanos representem eventos estatisticamente raros em escala global, a sua ocorrência concentrada em determinadas regiões costeiras desperta grande preocupação social e científica.

O Brasil ocupa a quarta posição no ranking mundial do ISAF com 107 ataques não provocados registrados desde 1580. O Estado de Pernambuco concentra a grande maioria dos incidentes no país. Um ataque (ou incidente) não provocado é definido como aquele que ocorre no habitat natural do tubarão, com o humano vivo, e no qual a pessoa não iniciou nenhuma ação agressiva ou de interação com o animal.

Diante da complexidade desse cenário, este artigo tem o objetivo de analisar todos os dados e apontar as possíveis causas dos incidentes sob a ótica analítica da ciência e, simultaneamente, sob a perspectiva de quem vivencia a realidade, classificando os ataques fora e dentro do Estado de Pernambuco.

Ataques fora de Pernambuco

Apesar do Estado de Pernambuco concentrar a grande maioria das ocorrências de ataques no país, outras regiões do litoral brasileiro também possuem registros históricos de acidentes com tubarões. Fora de Pernambuco, os casos são considerados isolados ou raros pelos especialistas.

O Estado de São Paulo lidera o ranking nacional com 11 incidentes, seguido de perto pelo Maranhão, com 10 ocorrências.

Registro de um ataque de tubarão ocorrido a um banhista em Ubatuba (SP).
Registro de um ataque de tubarão ocorrido a um surfista em Navegantes (SC).

Embora os registros de ataques sejam escassos, os avistamentos de tubarões têm aumentado no litoral Sudeste. Existe a preocupação de que esse fenômeno esteja associado à proibição da pesca dos tubarões, instituída pelas portarias do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

A Portaria MMA 445/2014 e suas revisões proíbe rigorosamente a captura, o transporte, o armazenamento e a comercialização de diversas espécies de tubarões desde 2014. A norma tem sido revisada e atualizada por portarias recentes, incluindo na lista tubarões potencialmente perigosos, exemplo do tubarão-anequim, azul, martelo, galha-preta, entre outras espécies.

  • Portaria MMA nº 163/2015: Sob forte pressão do setor pesqueiro adiaram os prazos de proibição de espécies com relevância comercial, como o tubarão-martelo, para que comissões técnicas reavaliassem os impactos socioeconômicos.
  • Portaria MMA nº 217/2017: permitiu temporariamente o uso sustentável e a pesca de espécies aquáticas classificadas estritamente como vulneráveis (VU), contanto que não fizessem parte de listas de proibição anteriores. Espécies em maior risco (CR e EN) permaneceram totalmente protegidas.
  • Portaria MMA nº 148/2022: Atualizou a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas, essa atualização antecipou a entrada em vigor da proibição da pesca de cinco novas espécies de tubarão, com destaque para o tubarão-anequim (Mako – Isurus oxyrinchus), além do tubarão-de-focinho-negro e do tubarão-galha-preta. No início de 2023, após a revogação de atos do governo anterior (como o programa CONSERVA+), o Ministério do Meio Ambiente validou o retorno integral dos critérios da Portaria 445.
  • Regulação Específica do Tubarão-Azul (2025): Em uma das revisões mais recentes elaboradas em conjunto com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), foram estabelecidas regras estritas de ordenamento e monitoramento voltadas especificamente para o tubarão-azul (Prionace glauca). A medida buscou impor cotas e restrições para tentar equilibrar a conservação com a atividade pesqueira dessa espécie.
  • Portarias MMA nº 1.666 e nº 1.667: reforça o rito técnico definitivo: qualquer espécie de tubarão sob ameaça só pode ter sua pesca ou aproveitamento permitidos se houver um Plano de Recuperação ativo aprovado pelo Ministério do Meio Ambiente. Caso contrário, a proibição de captura e comércio continua integral.

Apesar da escassez de registros fotográficos de tubarões na costa disponíveis na internet, os relatos de avistamentos crescem progressivamente. Pescadores de linha e subaquático reportam a presença desses animais em áreas anteriormente incomuns e de forma constante ao longo de todo o ano.

Há uma década, o avistamento de tubarões por pescadores subaquáticos era um evento raro no estado de São Paulo, mesmo para veteranos no esporte. Atualmente, constata-se não apenas um aumento nos avistamentos, mas também a presença de cardumes e espécimes de grande porte, quase sempre de espécies potencialmente perigosas. Os tubarões demonstram pouco receito de se aproximar dos pescadores subaquáticos, ocasionalmente até comem os peixes capturados que ficam presos à boia de sinalização.

Abaixo, registros fotográficos de alguns desses encontros.

O pescador subaquático Rodrigo, de Itanhaém (SP), pescava próximo à costa quando teve suas capturas atacadas por tubarões. Os predadores, aparentemente tubarões-galha-preta, investiram contra os peixes pendurados em sua boia de sinalização.

Enquanto pescadores subaquáticos costumam notar a presença de tubarões e deixar a água rapidamente, o mesmo não ocorre com surfistas e banhistas, que dificilmente conseguem enxergá-los. O alerta aumenta com o avistamento frequente de espécies perigosas nadando na arrebentação ou encalhando em praias movimentadas, um comportamento motivado, provavelmente, pela busca por alimento fácil.

Tubarão-martelo grande avistado na Praia de Astúrias no Guarujá (SP).
Tubarão anequim encalhado e devolvido para o mar em Itanhaém (SP).
Tubarão-azul encalhado na Riviera de São Lourenço em Bertioga (SP).

Característica científica dos tubarões encontrados em São Paulo:

Tubarão-Anequim / Mako (Isurus oxyrinchus)
  • Características: O tubarão mais rápido dos oceanos. Tem corpo em formato de torpedo, focinho alongado e dentes afiados em forma de agulha. Pode passar dos 4 metros.
  • Periculosidade: Raramente interage com banhistas ou surfistas em áreas costeiras. No entanto, é um predador extremamente agressivo e perigoso, representando grande risco a surfistas, mergulhadores e pescadores.
Tubarão-Azul (Prionace glauca)
  • Características: Alongado, com uma coloração azul-metálica vibrante e grandes nadadeiras peitorais. Alcança cerca de 3 a 4 metros de comprimento.
  • Periculosidade: Possui mandíbulas pequenas em proporção ao corpo e dentes especializados para caçar lulas e peixes menores. Raras vezes ataca humanos, salvo em situações excepcionais de naufrágios. É oceânico e raramente visto junto à costa.
Tubarão-Galha-Preta (Carcharhinus limbatus)
  • Características: Corpo esguio, focinho pontudo e nadadeiras com pontas pretas marcantes. Costuma medir até 1,5 metro.
  • Periculosidade: Não é considerado altamente perigoso para humanos. Geralmente é tímido, mas pode se tornar agressivo na presença de alimento. Há registros de mordidas acidentais no Brasil (como no litoral de São Paulo).
Tubarão-Mangona (Carcharias taurus)
  • Características: Corpo robusto, focinho pontudo e coloração cinza-amarronzada no dorso com ventre esbranquiçado. Os dentes são longos, finos e pontiagudos, ficando visíveis mesmo com a boca fechada.
  • Periculosidade: Não há registros de ataques fatais não provocados a humanos. Os acidentes são raros e geralmente ocorrem quando o animal é provocado.
Tubarão-Martelo (Sphyrna spp.)
  • Características: Facilmente reconhecido pela cabeça achatada em formato de “T” ou martelo. Espécies como o martelo-gigante podem ultrapassar 4 a 6 metros de comprimento.
  • Periculosidade: Há pouquíssimos registros de ataques a humanos

Ainda que o índice de incidentes na região Sudeste seja baixo, a pergunta que fica é se a proibição da pesca dos tubarões se tornará um problema igual a construção do porto de Suape em Pernambuco.

Por enquanto, o histórico da maioria dos ataques de tubarão no Brasil estão concentrados no litoral do Estado de Pernambuco. Mas e no futuro, como ficará a região Sudeste com o aumento na quantidade de tubarões e a baixa concentração de alimento para eles?

Cardume com mais de 100 tubarões-galha-preta em São Paulo, em uma unidade de preservação.
Cardume com mais de 100 tubarões-galha-preta em Ilha Grande (RJ).
Cerca de 100 tubarões-tigre são avistados na baía de Angra dos Reis (RJ), alguns ultrapassando 4,5m de comprimento.

É um equívoco creditar o aumento nos avistamentos de tubarões apenas às pequenas Áreas de Proteção Marinha, como se esses refúgios isolados fossem os únicos garantidores do equilíbrio ecológico. Embora essa narrativa seja utilizada de forma conveniente para chancelar o sucesso de gestões ambientais — carecendo, contudo, de embasamento científico robusto —, a recuperação populacional e a maior frequência de registros expandem-se por todo o litoral Sudeste. Essa justificativa simplista acaba por negligenciar um fenômeno muito mais amplo e preocupante: o expressivo crescimento demográfico desses predadores em toda a costa estadual.

A percepção pública sobre os tubarões passou por dois extremos históricos, o efeito “Tubarão (1975)”, que gerou uma histeria coletiva global, caça predatória e o declínio severo de várias populações de tubarões por causa de um filme de Steven Spielberg. E agora, o efeito da era das redes sociais, que vai na direção oposta, quando influenciadores, mergulhadores e ativistas digitais passaram a publicar vídeos nadando sem proteção ao lado de grandes predadores, acariciando seus focinhos e se referindo a eles como amigos e não comida, protegendo-os da pesca.

Há um perigo enorme em humanizar um predador ápice, tratar tubarões como amigos ignora sua natureza evolutiva. Eles possuem seis sentidos altamente apurados focados na caça, incluindo a eletrorecepção. Tubarões operam por instinto, fome e territorialismo. A ausência de um ataque durante um esporte aquático ou banho de mar não significa docilidade, mas sim que as condições daquele momento específico não despertaram o gatilho de caça do animal.

Portanto, a escassez de recursos decorrente do superpovoamento tende a ativar esse gatilho predatório, inclusive em perímetros com presença humana constante.

Ataques em Pernambuco

O histórico oficial de ataques de tubarão em Pernambuco totaliza 84 incidentes e 27 mortes entre o início da série histórica em 1992 e junho de 2026.

Ranking das praias com mais ataques de tubarão em Pernambuco.

Antes da década de 1990, os incidentes com tubarões na costa pernambucana eram extremamente raros. No entanto, entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, a construção do Porto de Suape, localizado ao sul de Recife, alterou significativamente o ecossistema e os hábitos migratórios das espécies na região. A destruição de estuários e mangues fez com que tubarões se aproximassem mais da área costeira metropolitana. Diante do aumento repentino de registros, o governo estadual criou em 1992 o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (CEMIT), dando início aos registros científicos oficiais.

Abaixo está a representação gráfica e cronológica dos ataques em Pernambuco com os dados obtidos pelo CEMIT.

A partir de 1999, o Governo de Pernambuco instituiu o decreto nº 21.402, que proíbe ou restringe a prática de surf e esportes aquáticos em áreas de risco. Ao longo dos anos, medidas de educação ambiental e monitoramento científico também foram adotadas para mitigar os riscos e alertar banhistas. Os incidentes continuam a ocorrer esporadicamente, evidenciando o desafio constante de conciliar a ocupação urbana litorânea com o habitat natural desses grandes predadores.

Letalidade dos ataques

Os dados do CEMIT apresentam uma taxa de letalidade superior a 30%, índice concentrado essencialmente no trecho metropolitano que liga o Cabo de Santo Agostinho a Olinda.

Os ataques de tubarão em águas rasas tendem a ser mais letais principalmente devido à gravidade das mordidas, à dificuldade de fuga e socorro imediato, e ao perfil das espécies que frequentam essas áreas costeiras. Embora a maioria das interações humanas com tubarões seja acidental, as condições específicas da zona de arrebentação e das águas rasas amplificam drasticamente as consequências de uma mordida.

  • O tubarão guia-se pelo som, vibrações e campos elétricos. O movimento de pernas e braços espirrando água mimetiza peixes ou presas feridas, chamando-os a atenção para uma alimentação fácil.
  • Espécies grandes desferem uma mordida “teste” para identificar o objeto. Pelo tamanho do animal, essa única mordida exploratória causa lacerações massivas, amputações traumáticas e choque hipovolêmico (perda severa de sangue).
  • Em águas rasas (na altura da cintura ou do peito), a vítima e as pessoas ao redor não conseguem nadar livremente nem correr de forma ágil, pois a densidade da água e a força das ondas reduzem a velocidade de reação e de fuga, dificultando se afastar do predador quando percebido.
  • Em águas rasas, retirar a vítima da zona de arrebentação contra a força das ondas atrasa a aplicação de torniquetes e os primeiros socorros críticos por parte dos salva-vidas.
  • Em regiões com alta incidência de casos fatais, como nas praias de Boa Viagem e Piedade, existem canais profundos paralelos à areia. Os tubarões de grande porte utilizam esses canais profundos para transitar próximos à praia e, quando a maré sobe, chegam subitamente à faixa rasa onde estão os banhistas.
  • A faixa de águas rasas e estuários é habitada por espécies costeiras altamente territoriais e agressivas, além de possuírem altos níveis de testosterona que possibilitam nadar perfeitamente em águas muito rasas sem encalhar.
Imagem demonstrativa da alta letalidade de ataques em água rasas.

A grande maioria das mortes na Região Metropolitana do Recife ocorre devido à ação das espécies Tubarão-Cabeça-Chata e o Tubarão-Tigre, ambos com mordidas de grande impacto mecânico.

Tubarão-Tigre (Galeocerdo cuvier)

  • Embora seja uma espécie migratória de mar aberto, os indivíduos jovens utilizam as águas costeiras de Recife como área de desenvolvimento, especialmente no primeiro ano de vida. Sendo um caçador oportunista e muito curioso, ele se aproxima da praia atraído por descartes orgânicos e resíduos de embarcações. É conhecido como “lixeiro do mar”, pois comem tudo o que encontra.
  • Possui dentes serrilhados extremamente fortes, capazes de quebrar cascos de tartarugas. Eles são predadores oportunistas (carniceiros) que mordem quase tudo o que flutua.
  • Cientistas e pescadores já registraram itens bizarros intactos em seus estômagos, como placas de carro, pneus, latas de tinta, roupas e pedaços de barcos. Para evitar a morte por obstrução, o tubarão-tigre consegue fazer a eversão gástrica. Isso significa que ele pode literalmente colocar o estômago para fora da boca para expelir e lavar coisas que não consegue digerir.

Tubarão-Cabeça-Chata (Carcharhinus leucas)

  • Circula muito em águas rasas, a menos de um metro de profundidade, aproximando-se da areia para caçar. Como tolera água doce, ele entra frequentemente em estuários, rios e canais turvos de Pernambuco.
  • É um predador ativo e territorialista que foca a sua dieta em peixes, outros tubarões e raias. Ele raramente consome objetos inanimados, mas pode acontecer, pois habitam estuários, rios e praias rasas urbanas (áreas muito poluídas).

A potência maxilar desses tubarões atinge até 5.914 Newtons, gerando um impacto mecânico capaz de fraturar estruturas ósseas humanas e romper tecidos musculares severamente.

Os dados oficiais do CEMIT revelam padrões muito claros quando cruzadas as 27 mortes confirmadas com o perfil de atividade, fatores ambientais e vulnerabilidade institucional. O perfil de letalidade se divide entre o comportamento do banhista e do surfista, impulsionado pelas condições físicas da água e a falta de sinalização e/ou imprudência dos banhistas.

Perfil de atividade

  • Banhistas (Raso/Fundo): 15 Óbitos (Aprox. 55% das mortes) – Os casos fatais ocorrem majoritariamente quando o banhista ultrapassa a linha dos recifes de corais ou entra no mar em áreas de frente para os canais abertos. A letalidade aqui é alta devido ao efeito surpresa, os tubarões investem rapidamente da água profunda para as águas rasas, atacando os banhistas no tronco ou nas coxas (artéria femoral), gerando hemorragias rápidas.
  • Surfistas: 11 Óbitos (Aprox. 41% das mortes) – Os surfistas representam uma categoria historicamente muito afetada. Como permanecem além da arrebentação (área de caça ativa dos grandes tubarões), os ataques costumam ser severos. A prática do surf foi proibida por decreto em Pernambuco exatamente pelo alto índice de fatalidades nesta modalidade.
  • Mergulhadores / Outros: 1 Óbito (Aprox. 4% das mortes).
Os incidentes no raso costumam ser graves, pois atingem a artéria femoral, causando graves hemorragias.

Fatores ambientais

  1. Impacto ambiental de Suape: A construção do Complexo Portuário de Suape na década de 1980 destruiu manguezais e estuários locais. Isso desalojou espécies costeiras e alterou a rota migratória natural em direção às praias de Recife.
  2. Topografia da costa: A existência de um canal subaquático profundo e natural que corre paralelamente à praia de Boa Viagem e Piedade permite que tubarões de grande porte se aproximem a poucos metros da areia.
  3. Água turva e condições climáticas: A maré alta combinada com o período da tarde (entre 13h e 16h) concentra a maioria absoluta dos óbitos. Nesse horário, a luminosidade muda e a água na costa costuma estar muito turva pelo movimento das ondas e foz dos rios, facilitando um ataque surpresa. Os meses de inverno (principalmente entre maio, junho e julho) são os mais perigosos. As chuvas frequentes fazem os rios desaguarem mais matéria orgânica no mar, atraindo peixes e deixando a água muito turva.
  4. Horário e comportamento da maré: Quando a maré sobe, a água encobre os recifes de coral (as barreiras naturais da praia). Isso permite que espécies de grande porte, como o Tubarão-Tigre e o Cabeça-Chata, nadem por cima das rochas e acessem os canais profundos que ficam colados na areia, pegando banhistas em investidas nas águas rasas. Mais de 70% dos incidentes fatais aconteceram durante o pico da maré cheia ou na transição da maré subindo.
  5. Impacto do ciclo lunar: As estatísticas históricas do CEMIT também apontam que as fases de Lua Nova e Lua Cheia concentram os registros mais graves segundo dados de monitoramento. Nessas fases do ciclo lunar ocorrem as chamadas marés de sizígia (marés astronômicas de grande amplitude), fazendo com que a maré alta suba ainda mais e as correntes fiquem consideravelmente mais fortes, atraindo grandes predadores para bem perto da faixa de areia.
De acordo com a carta náutica, a escala de profundidade aponta a existência de um canal mais profundo paralelo às praias, entre Piedade e Boa Viagem. Os tubarões nadam nesse canal antes dos ataques em águas rasas.

Vulnerabilidade institucional

  1. Sinalização: A interrupção de investimentos continuados e o vandalismo contra mais de um terço das placas de sinalização turística agravam a exposição dos banhistas ao risco.
  2. Campanhas: A falta de campanhas eficientes sobre a prevenção de banho em áreas de risco acentua o problema da ausência das placas.
  3. Fim da pesca: A restrição da pesca do tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas), instituída pela Portaria MMA nº 445/2014, resulta no crescimento populacional da espécie, intensificando o conflito socioambiental na região.

Aumento das ocorrências

Em 2026, Pernambuco registrou 4 ataques de tubarão, marcando o maior número de ocorrências em 20 anos no Estado. Abaixo estão listados detalhadamente os quatro casos em ordem cronológica:

1. Fernando de Noronha (Janeiro)

  • Data: 9 de janeiro de 2026.
  • Vítima: Tayane Dalazen, uma turista paulista de 36 anos.
  • Local: Arquipélago de Fernando de Noronha.
  • Resultado: Sobrevivente. O incidente foi provocado por um tubarão-lixa, uma espécie considerada de comportamento menos agressivo.

2. Praia Del Chifre, Olinda (Janeiro)

  • Data: 29 de janeiro de 2026.
  • Vítima: Deivson Rocha Dantas, um adolescente de 14 anos.
  • Local: Praia Del Chifre, em Olinda (Região Metropolitana do Recife).
  • Resultado: Óbito. O jovem foi socorrido e levado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos graves. O ataque foi atribuído a um tubarão-cabeça-chata.

3. Praia de Piedade, Jaboatão dos Guararapes (Maio)

  • Data: Domingo, 31 de maio de 2026.
  • Vítima: João Lucas Castor Nemezio Sales, um menino de 11 anos.
  • Local: Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes.
  • Resultado: Sobrevivente em estado grave. O garoto foi mordido na mão e na coxa esquerda enquanto tomava banho de mar. Ele perdeu muito sangue e precisou passar por uma cirurgia de emergência no Hospital da Restauração, resultando na amputação da perna esquerda. A espécie envolvida foi o tubarão-cabeça-chata.

4. Praia de Boa Viagem, Recife (Junho)

  • Data: Segunda-feira, 1º de junho de 2026 (menos de 24 horas após o caso de Piedade).
  • Vítima: Marcela Vitória de Lima Santos, uma estudante de 19 anos.
  • Local: Praia de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife.
  • Resultado: Sobrevivente em estado grave. A jovem estava na água quando sofreu uma mordida severa que causou a amputação imediata da perna direita ainda no mar. Ela foi estabilizada e encaminhada para a UTI. De acordo com os relatórios técnicos do CEMIT, o ataque foi provocado por um tubarão-tigre de aproximadamente três metros de comprimento.

A romantização dos incidentes

Os tubarões-tigre e cabeça-chata possuem uma dieta oportunista, o que lhes rendeu o apelido de “lixeiros do mar”, comem praticamente qualquer coisa. No entanto, atribuir os ataques a banhistas à “confusão alimentar” por baixa visibilidade da água é um equívoco. Essa justificativa ignora os múltiplos sentidos altamente apurados desses predadores, que utilizam o olfato e a eletrorrecepção muito antes da visão para caçar.

A romantização desses predadores ignora tragédias históricas como o naufrágio do USS Indianapolis, no qual sobreviventes enfrentaram quatro dias de ataques incessantes de tubarões, resultando em centenas de mortes. Esses animais atacam humanos por puro oportunismo, e não por confusão; afinal, um banhista de pé em águas rasas não possui qualquer semelhança com as suas presas habituais.

Mobilização do Estado

A reação das autoridades do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (CEMIT) em junho de 2026 foi marcada por reuniões de emergência e pelo anúncio de um plano de contingência robusto. Após o Estado registrar dois ataques severos em menos de 24 horas, o órgão se reuniu a portas fechadas no Parque Estadual Dois Irmãos para traçar novas medidas técnicas, de fiscalização e de comunicação social.

O plano de ação anunciado pelo comitê foca em três frentes principais:

1. Retomada das pesquisas e implantação de microchips

  • Monitoramento Científico: O CEMIT anunciou o retorno das pesquisas continuadas de monitoramento populacional que estavam interrompidas há 11 anos.
  • Uso de Telemetria: Com um aporte de R$ 1,05 milhão via Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (FACEPE), o projeto será executado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
  • Microchipagem: A equipe de pesquisadores utilizará barcos e espinhéis científicos para capturar e instalar microchips de localização em pelo menos 50 tubarões já a partir do próximo mês. O objetivo é mapear rotas de reprodução, áreas de permanência e padrões de aproximação da orla.

2. Reposição urgente de sinalização vandalizada

  • Placas de Alerta: De acordo com relatórios do CEMIT, o Governo de Pernambuco havia instalado 150 novas placas de aviso na faixa litorânea de 33 km entre Olinda e o Cabo de Santo Agostinho.
  • Combate ao Vandalismo: O comitê revelou que 55 dessas placas foram intencionalmente arrancadas ou vandalizadas pela população. Uma força-tarefa foi mobilizada para realizar a reposição imediata de toda a sinalização destruída.

3. Reforço de guarda-vidas e campanhas educativas

  • Integração de Órgãos: A gestão reuniu 14 instituições públicas, incluindo o Corpo de Bombeiros, o SAMU e as guardas municipais de Recife, Olinda e Jaboatão, para intensificar a vigilância na areia e retirar banhistas em situação de risco.
  • Esclarecimento das Restrições: A secretária-executiva do CEMIT, Danise Alves, ressaltou que as praias continuam liberadas para banho, mas sob estritas condições ambientais. O comitê está reforçando as campanhas de educação ambiental para desencorajar o banho durante períodos específicos.

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