ATAQUES DE TUBARÃO NO BRASIL

Introdução

Os tubarões são organismos do topo de cadeia alimentar que desempenham um papel ecológico fundamental na manutenção da saúde e do equilíbrio dos ecossistemas marinhos. No entanto, a interação entre seres humanos e esses elasmobrânquios tem gerado conflitos significativos, principalmente quando resulta em incidentes classificados como “ataques”.

Embora o Arquivo Internacional de Ataques de Tubarão (ISAF), da Universidade da Flórida, aponte que os encontros fatais com humanos representem eventos estatisticamente raros em escala global, a sua ocorrência concentrada em determinadas regiões costeiras desperta grande preocupação social e científica.

O Brasil ocupa a quarta posição no ranking mundial do ISAF com 107 ataques não provocados registrados desde 1580. O Estado de Pernambuco concentra a grande maioria dos incidentes no país.

Diante da complexidade desse cenário, este artigo tem o objetivo de analisar todos os dados e apontar as possíveis causas dos incidentes sob a ótica analítica da ciência e, simultaneamente, sob a perspectiva viva de quem vivencia a realidade com mais frequência, classificando os ataques fora e dentro do Estado de Pernambuco.

Ataques fora de Pernambuco

Apesar do Estado de Pernambuco concentrar a grande maioria das ocorrências de ataques no país, outra regiões do litoral brasileiro também possuem registros históricos de acidentes com tubarões. Fora de Pernambuco, os casos são considerados isolados ou raros pelos especialistas.

Ataque de tubarão ocorrido em Ubatuba/SP.

Abaixo estão os principais acidentes e registros documentados fora de Pernambuco:

⚠️ Região Sudeste

  • São Paulo (Ubatuba): No ano de 2021, a cidade de Ubatuba registrou dois ataques em menos de um mês. O primeiro envolveu um turista francês na Praia Grande e o segundo uma idosa de 79 anos na Praia do Lamberto. Ambos sofreram mordidas nas pernas e sobreviveram.
  • Rio de Janeiro (Rio de Janeiro): O Estado possui cerca de 8 incidentes registrados nos últimos 200 anos. O caso mais conhecido ocorreu em 1947, na Praia de Copacabana, envolvendo um banhista que nadava distante da orla.

⚠️ Região Nordeste (Exceto Pernambuco)

  • Maranhão (São Luís): O Estado possui registros históricos severos nas praias da capital. O caso mais antigo documentado data de 1931, na Praia do Olho d’Água. Na década de 1990, praias como Calhau e Caolho registraram incidentes fatais envolvendo banhistas.
  • Bahia (Ilhéus): O último ataque confirmado no Estado ocorreu em fevereiro de 2005, na Praia de Luzimares, em Ilhéus, onde um surfista de 12 anos foi mordido no pé.

⚠️ Região Norte

  • Pará (Salinópolis): A Praia do Atalaia, em Salinópolis, entra na lista de monitoramento nacional por registrar incidentes isolados com banhistas e pescadores.
Os incidentes da década de 1990 no Maranhão e os registros gerais do Pará não possuem anos exatos especificados, por isso não foram incluídos individualmente no eixo cronológico do gráfico

Apesar dos poucos registros de ataques, tubarões têm sido avistados com muita frequência no litoral Sudeste e existe uma preocupação do fenômeno poder estar relacionado com a proibição da pesca dos tubarões, estabelecida pela Portaria MM 445/2014 e suas revisões.

Alguns registros tem sido feitos próximo das praias e dentro de áreas de conservação, mas está cada vez mais frequente os avistamentos por pescadores de linha e pescadores subaquáticos em distâncias cada vez mais próximas da orla, e em quase todos os períodos do ano.

O fato é que há 10 anos atrás em São Paulo era raro algum pescador subaquático veterano já ter visto algum tubarão mergulhando. Agora, além de serem avistado, estão aparecendo em cardumes, ou indivíduos muito grandes, espécies potencialmente perigosas, e na maioria das vezes sem qualquer receio de se aproximar do ser humano, até atacando peixes arpoados.

Abaixo, alguns exemplos de encontros registrados em fotografia.

Rodrigo de Itanhaém/SP, mergulhando próximo da costa, teve seus peixe arpoados atacados por tubarões, depois de pendurá-los na boia.

Ocorre que na maioria das vezes, o pescador subaquático identifica a presença do tubarão e se retira da água quando identifica que é uma espécie potencialmente perigosa. Mas, isso não ocorre com banhistas e surfistas, e tubarões perigosos vem encalhando na praia, provavelmente estão na orla procurando por comida.

Tubarão-martelo grande avistado na Praia de Astúrias no Guarujá/SP.
Tubarão anequim encalhado e devolvido para o mar em Itanhaém/SP.
Tubarão-azul encalhado na Riviera de São Lourenço em Bertioga/SP.
Cardume com mais de 100 tubarões-galha-preta em São Paulo, em uma unidade de preservação.
Cardume com mais de 100 tubarões-galha-preta em Ilha Grande/RJ.

A Portaria MMA 445/2014 e suas revisões proíbe rigorosamente a captura, o transporte, o armazenamento e a comercialização de tubarões desde 2014. A norma tem sido revisada e atualizada por portarias recentes, incluindo na lista tubarões potencialmente perigosos, exemplo do tubarão-anequim, azul, martelo, galha-preta, entre outras espécies.

Característica científica dos tubarões encontrados em São Paulo:

Tubarão-Anequim / Mako (Isurus oxyrinchus)
  • Características: O tubarão mais rápido dos oceanos. Tem corpo em formato de torpedo, focinho alongado e dentes afiados em forma de agulha. Pode passar dos 4 metros.
  • Periculosidade: Raramente interage com banhistas ou surfistas em áreas costeiras. No entanto, é um predador extremamente agressivo e perigoso, representando grande risco a surfistas, mergulhadores e pescadores.
Tubarão-Azul (Prionace glauca)
  • Características: Alongado, com uma coloração azul-metálica vibrante e grandes nadadeiras peitorais. Alcança cerca de 3 a 4 metros de comprimento.
  • Periculosidade: Possui mandíbulas pequenas em proporção ao corpo e dentes especializados para caçar lulas e peixes menores. Raras vezes ataca humanos, salvo em situações excepcionais de naufrágios. É oceânico e raramente visto junto à costa.
Tubarão-Martelo (Sphyrna spp.)
  • Características: Facilmente reconhecido pela cabeça achatada em formato de “T” ou martelo. Espécies como o martelo-gigante podem ultrapassar 4 a 6 metros de comprimento.
  • Periculosidade: Há pouquíssimos registros de ataques a humanos
Tubarão-Galha-Preta (Carcharhinus limbatus):
  • Características: Corpo esguio, focinho pontudo e nadadeiras com pontas pretas marcantes. Costuma medir até 1,5 metro.
  • Periculosidade: Não é considerado altamente perigoso para humanos. Geralmente é tímido, mas pode se tornar agressivo na presença de alimento. Há registros de mordidas acidentais no Brasil (como no litoral de São Paulo).

Ainda que o índice de acidentes na região Sudeste seja baixo, a pergunta que fica é se a proibição da pesca dos tubarões se tornará um problema igual a construção do porto de Suape em Pernambuco.

Por enquanto, o histórico da maioria dos ataques de tubarão no Brasil estão concentrado no litoral do Estado de Pernambuco. Mas e no futuro, como ficará a região Sudeste com o aumento na quantidade de tubarões e a baixa concentração de alimento para eles?

Ataques em Pernambuco

O histórico oficial de ataques de tubarão em Pernambuco totaliza 84 incidentes e 27 mortes entre o início da série histórica em 1992 e junho de 2026.

Antes da década de 1990, os incidentes com tubarões na costa pernambucana eram extremamente raros. No entanto, entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, a construção do Porto de Suape, localizado ao sul de Recife, alterou significativamente o ecossistema e os hábitos migratórios das espécies na região. A destruição de estuários e mangues fez com que tubarões se aproximassem mais da área costeira metropolitana. Diante do aumento repentino de registros, o governo estadual criou em 1992 o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (CEMIT), dando início aos registros científicos oficiais.

A partir de 1999, o Governo de Pernambuco instituiu o decreto nº 21.402, que proíbe ou restringe a prática de surf e esportes aquáticos em áreas de risco. Ao longo dos anos, medidas de educação ambiental e monitoramento científico também foram adotadas para mitigar os riscos e alertar banhistas. Os incidentes continuam a ocorrer esporadicamente, evidenciando o desafio constante de conciliar a ocupação urbana litorânea com o habitat natural desses grandes predadores.

Dados e fatores científicos

Das 84 ocorrências históricas mapeadas pelo comitê estadual, 27 ataques foram fatais, representando uma taxa de letalidade superior a 30%, índice concentrado essencialmente no trecho metropolitano que liga Olinda ao Cabo de Santo Agostinho, segundo dados atualizados do CEMIT.

A grande maioria das mortes na Região Metropolitana do Recife ocorre devido à ação das espécies Tubarão-Cabeça-Chata e o Tubarão-Tigre, ambos com mordidas de grande impacto mecânico.

Tubarão-Tigre (Galeocerdo cuvier)

  • Embora seja uma espécie migratória de mar aberto, os indivíduos jovens utilizam as águas costeiras de Recife como área de desenvolvimento, especialmente no primeiro ano de vida. Sendo um caçador oportunista e muito curioso, ele se aproxima da praia atraído por descartes orgânicos e resíduos de embarcações.

Tubarão-Cabeça-Chata (Carcharhinus leucas)

  • Circula muito em águas rasas, a menos de um metro de profundidade, aproximando-se da areia para caçar. Como tolera água doce, ele entra frequentemente em estuários, rios e canais turvos de Pernambuco. Suas mordidas na costa costumam ocorrer por erro de identificação do alvo em águas de baixa visibilidade.
Comparação da força de mordida entre as duas espécies que mais atacam em Pernambuco.

Os dados oficiais do CEMIT revelam padrões muito claros quando cruzadas as 27 mortes confirmadas com o perfil de atividade, fatores ambientais e vulnerabilidade institucional. O perfil de letalidade se divide entre o comportamento do banhista e do surfista, impulsionado pelas condições físicas da água e a falta de sinalização e/ou imprudência dos banhistas.

Perfil de atividade

  • Banhistas (Raso/Fundo): 15 Óbitos (Aprox. 55% das mortes) – Os casos fatais ocorrem majoritariamente quando o banhista ultrapassa a linha dos recifes de corais ou entra no mar em áreas de frente para os canais abertos. A letalidade aqui é alta devido ao efeito surpresa, os tubarões investem rapidamente da água profunda para as águas rasas, onde o banhista costuma ser atacado no tronco ou nas coxas (artéria femoral), gerando hemorragias rápidas.
  • Surfistas: 11 Óbitos (Aprox. 41% das mortes) – Os surfistas representam uma categoria historicamente muito afetada. Como permanecem além da arrebentação (área de caça ativa dos grandes tubarões), os ataques costumam ser severos. A prática do surf foi proibida por decreto em Pernambuco exatamente pelo alto índice de fatalidades nesta modalidade.
  • Mergulhadores / Outros: 1 Óbito (Aprox. 4% das mortes).
Os incidentes no raso costumam ser graves, pois atingem a artéria femoral, causando graves hemorragias.
Imagem demonstrativa da alta letalidade em ataques em água rasas.

Fatores ambientais

  1. Impacto ambiental de Suape: A construção do Complexo Portuário de Suape na década de 1980 destruiu manguezais e estuários locais. Isso desalojou espécies costeiras e alterou a rota migratória natural em direção às praias de Recife.
  2. Topografia da costa: A existência de um canal subaquático profundo e natural que corre paralelamente à praia de Boa Viagem e Piedade permite que tubarões de grande porte se aproximem a poucos metros da areia.
  3. Água turva e condições climáticas: A maré alta combinada com o período da tarde (entre 13h e 16h) concentra a maioria absoluta dos óbitos. Nesse horário, a luminosidade muda e a água na costa costuma estar muito turva pelo movimento das ondas e foz dos rios, o que faz com que o tubarão confunda o reflexo ou os movimentos humanos com suas presas naturais. Os meses de inverno (principalmente entre maio, junho e julho) são os mais perigosos. As chuvas frequentes fazem os rios desaguarem mais matéria orgânica no mar, atraindo peixes e deixando a água muito turva.
  4. Horário e comportamento da maré: Quando a maré sobe, a água encobre os recifes de coral (as barreiras naturais da praia). Isso permite que espécies de grande porte, como o Tubarão-Tigre e o Cabeça-Chata, nadem por cima das rochas e acessem os canais profundos que ficam colados na areia, pegando banhistas em investidas nas águas rasas. Mais de 70% dos incidentes fatais aconteceram durante o pico da maré cheia ou na transição da maré subindo.
  5. Impacto do ciclo lunar: As estatísticas históricas do CEMIT também apontam que as fases de Lua Nova e Lua Cheia concentram os registros mais graves segundo dados de monitoramento. Nessas fases do ciclo lunar ocorrem as chamadas marés de sizígia (marés astronômicas de grande amplitude), fazendo com que a maré alta suba ainda mais e as correntes fiquem consideravelmente mais fortes, atraindo grandes predadores para bem perto da faixa de areia.
Mapa demonstrativo da topografia e zonas de risco de ataques.

Vulnerabilidade institucional

  1. Sinalização: A interrupção de investimentos continuados e o vandalismo contra mais de um terço das placas de sinalização turística agravam a exposição dos banhistas ao risco.
  2. Campanhas: A falta de campanhas eficientes sobre a prevenção de banho em áreas de risco acentua o problema da ausência das placas.

Abaixo está a representação gráfica dos ataques em Pernambuco com os dados obtidos pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (CEMIT).

Em 2026, Pernambuco registrou 4 ataques de tubarão, marcando o maior número de ocorrências em 20 anos no Estado. Abaixo estão listados detalhadamente os quatro casos em ordem cronológica:

1. Fernando de Noronha (Janeiro)

  • Data: 9 de janeiro de 2026.
  • Vítima: Tayane Dalazen, uma turista paulista de 36 anos.
  • Local: Arquipélago de Fernando de Noronha.
  • Resultado: Sobrevivente. O incidente foi provocado por um tubarão-lixa, uma espécie considerada de comportamento menos agressivo.

2. Praia Del Chifre, Olinda (Janeiro)

  • Data: 29 de janeiro de 2026.
  • Vítima: Deivson Rocha Dantas, um adolescente de 14 anos.
  • Local: Praia Del Chifre, em Olinda (Região Metropolitana do Recife).
  • Resultado: Óbito. O jovem foi socorrido e levado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos graves. O ataque foi atribuído a um tubarão-cabeça-chata.

3. Praia de Piedade, Jaboatão dos Guararapes (Maio)

  • Data: Domingo, 31 de maio de 2026.
  • Vítima: João Lucas Castor Nemezio Sales, um menino de 11 anos.
  • Local: Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes.
  • Resultado: Sobrevivente em estado grave. O garoto foi mordido na mão e na coxa esquerda enquanto tomava banho de mar. Ele perdeu muito sangue e precisou passar por uma cirurgia de emergência no Hospital da Restauração, resultando na amputação da perna esquerda. A espécie envolvida foi o tubarão-cabeça-chata.

4. Praia de Boa Viagem, Recife (Junho)

  • Data: Segunda-feira, 1º de junho de 2026 (menos de 24 horas após o caso de Piedade).
  • Vítima: Marcela Vitória de Lima Santos, uma estudante de 19 anos.
  • Local: Praia de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife.
  • Resultado: Sobrevivente em estado grave. A jovem estava na água quando sofreu uma mordida severa que causou a amputação imediata da perna direita ainda no mar. Ela foi estabilizada e encaminhada para a UTI. De acordo com os relatórios técnicos do CEMIT, o ataque foi provocado por um tubarão-tigre de aproximadamente três metros de comprimento.

Mobilização do Estado

A reação das autoridades do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (CEMIT) em junho de 2026 foi marcada por reuniões de emergência e pelo anúncio de um plano de contingência robusto. Após o Estado registrar dois ataques severos em menos de 24 horas, o órgão se reuniu a portas fechadas no Parque Estadual Dois Irmãos para traçar novas medidas técnicas, de fiscalização e de comunicação social.

O plano de ação anunciado pelo comitê foca em três frentes principais:

1. Retomada das pesquisas e implantação de microchips

  • Monitoramento Científico: O CEMIT anunciou o retorno das pesquisas continuadas de monitoramento populacional que estavam interrompidas há 11 anos.
  • Uso de Telemetria: Com um aporte de R$ 1,05 milhão via Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (FACEPE), o projeto será executado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
  • Microchipagem: A equipe de pesquisadores utilizará barcos e espinhéis científicos para capturar e instalar microchips de localização em pelo menos 50 tubarões já a partir do próximo mês. O objetivo é mapear rotas de reprodução, áreas de permanência e padrões de aproximação da orla.

2. Reposição urgente de sinalização vandalizada

  • Placas de Alerta: De acordo com relatórios do CEMIT, o Governo de Pernambuco havia instalado 150 novas placas de aviso na faixa litorânea de 33 km entre Olinda e o Cabo de Santo Agostinho.
  • Combate ao Vandalismo: O comitê revelou que 55 dessas placas foram intencionalmente arrancadas ou vandalizadas pela população. Uma força-tarefa foi mobilizada para realizar a reposição imediata de toda a sinalização destruída.

3. Reforço de guarda-vidas e campanhas educativas

  • Integração de Órgãos: A gestão reuniu 14 instituições públicas, incluindo o Corpo de Bombeiros, o SAMU e as guardas municipais de Recife, Olinda e Jaboatão, para intensificar a vigilância na areia e retirar banhistas em situação de risco.
  • Esclarecimento das Restrições: A secretária-executiva do CEMIT, Danise Alves, ressaltou que as praias continuam liberadas para banho, mas sob estritas condições ambientais. O comitê está reforçando as campanhas de educação ambiental para desencorajar o banho durante períodos específicos.

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